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Frio pressiona inflação e impacta preços do café, legumes e verduras

O frio deve chegar a mesa dos brasileiros com força esse ano. As geadas ameaçam as safras, pressionando ainda mais a inflação dos alimentos. Café, açúcar, soja, verduras, legumes e até a carne podem ser impactados.

Segundo o economista da FGV (Fundação Getulio Vargas) e coordenador do IBRE (Instituto Brasileiro de Economia), André Braz, os alimentos já acumulam alta acima da inflação, o que torna a baixa temperatura ainda mais prejudicial.

Os alimentos estão exercendo a segunda maior influência no IPCA [Índice de Preços ao Consumidor Amplo, do IBGE], subindo quase 13% em 12 meses. Isso afeta muito orçamento de famílias. Com uma nova pressão, fica ainda mais complicado porque começamos a ter aumentos mais distantes da inflação média, que está em torno de 12%”, explica.

Disparada do café

Com as previsões de geadas no Brasil, grande produtor de café, houve um aumento de 5,1% nos contratos futuros para julho do produto na ICE (operadora da bolsa norte-americana) na última segunda-feira (16). No dia seguinte, o café atingiu a máxima em três semanas e meia.

De acordo com dados do IPCA, medido pelo IBGE, em 12 meses, o item acumula alta de 65,9%. Na prática, aquele pacote que custava cerca de R$ 10 há 1 ano passou para quase R$ 17 agora.

O inverno provoca efeitos ainda mais danosos em alimentos com ciclos de plantação mais longos. “O café foi surpreendido pelas geadas em julho do ano passado e isso fez com que ele subisse muito em um ano e corre o risco de ser, novamente, prejudicado pelo inverno. O problema é que o ciclo do café é bianual, então, leva dois anos para oferta se normalizar e o preço cair. Se no meio desse período ocorre outra geada forte, atrasa mais a recuperação do preço. Ele vai ficar mais caro por mais tempo”, afirma Braz.

Mais alimentos e produtos devem sentir uma elevação nos preços. “Essas geadas ameaçam plantações de soja, de milho e cana-de-açúcar, todas que também sofreram no ano passado naquele episódio de geada e têm ciclos longos. O aumento na cana-de-açúcar encarece o etanol. A soja e o milho impactam na ração dos animais dos quais a gente consome a carne, fazendo com que a pressão na inflação seja muito maior”, completa o coordenador do IBRE.

O açúcar bruto teve, nessa semana, a maior alta para julho desde o final de abril nos contratos futuros (2,7%). A soja registra alta desde o início da semana e subiu, na terça-feira, 1,3%. O IPCA aponta que, nos últimos 12 meses, o açúcar cristal subiu 36,33% e o etanol, 30,55%. Já o óleo de soja teve alta de 30,1% e as carnes no geral, de 9,06%.

Alimentos in-natura

Frutas e verduras também são impactadas pelas geadas, mas o inverno tem um efeito menos duradouro nos preços desses alimentos. “As lavouras curtas, como alface, tomate, cebola, principalmente, folhas e frutos estragam com o frio, impactando em toda feira-livre. A oferta diminui e o preço desses alimentos disparam temporariamente”, explica Braz.

Os alimentos in-natura tem sido os grandes vilões da inflação. No período de 12 meses, a cenoura acumula aumento robusto conforme a inflação oficial, de 195% — assim como tomate (117,48%), abobrinha (86,83), repolho (59,38%), pimentão (50,18%) e alface (46,22).

Segundo o coordenador do curso de Ciências Econômicas da PUC-PR, Jackson Teixeira Bittencourt, esse fenômeno natural é chamado de geada negra. É perigosa porque não dá para ver aquela cobertura branca em cima das plantas. Entretanto, quando você pega a hortaliça, ela está congelada e já estragou.

Perspectiva é de mais aumentos

Ainda de acordo com Bittencourt, o clima é um fator preocupante já o Brasil que ainda não entrou no inverno. “As geadas vieram com uma intensidade muito grande ainda no outono. Vamos ter problemas na colheita, na safra, isso tende a pressionar os preços desses produtos antes do esperado”, analisa.

“Além disso, há o conflito entre Rússia e Ucrânia que vem prejudicando os preços agrícolas, nós tivemos seca e agora um frio intenso. É difícil dizer quanto vai subir, porque cada item da cesta básica vai ter um impacto diferente”, completa o economista.

A PUC do Paraná criou um índice que calcula a inflação da cesta básica, que já chegou a 29% nos últimos 12 meses, quase três vezes a inflação oficial do IPCA.

Fonte: R7

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